Please enable JavaScript to view the comments powered by Disqus.O garoto indígena que enganou a FIFA | PELEJA

O garoto indígena que enganou a FIFA

Fui entender como o futebol e o hip hop amplificam a voz do indígena no Brasil.

por João Vasques Rosa | 13 de May
O garoto indígena que enganou a FIFA

Muito provavelmente você não viu, mas um protesto aconteceu na abertura da Copa do Mundo de 2014. No centro do estádio do Corinthians, pouco antes do início da partida Brasil x Croácia, um indígena ergueu uma faixa que dizia “DEMARCAÇÃO JÁ”.

Como a justiça e a realidade não são favoráveis, a Copa do Mundo, o maior espetáculo esportivo do planeta, foi a vitrine ideal para a exposição da causa ao mundo inteiro. Durante a cerimônia de abertura a polêmica faixa permaneceu escondida no calção de um jovem, até que, instantes antes do apito, foi revelada. O cartaz erguido pelo rapaz era um protesto referente a uma questão urgente no Brasil. A luta pela demarcação das terras indígenas é travada há muito tempo e busca garantir aos nativos o direito de ter seu espaço reconhecido e assegurado para viver conforme sua organização social, cultivando seus costumes, crenças, línguas e tradições.

Veículos tradicionais pouco noticiaram o momento histórico e a FIFA também ocultou o protesto e editou as gravações, escondendo o ocorrido até hoje.

Querendo saber mais sobre isso, colei na aldeia Krukutu da Terra Indígena Tenondé Porã pra trocar ideia com os protagonistas do fato.

A comunidade Guarani M’bya fica em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, e eu já cheguei lá em meio a uma torcida entusiasmada que lotava as arquibancadas - na verdade eram morrinhos que cercavam o campo de futebol da aldeia. Situado às margens da represa Billings, o gramado irregular e cheio de terra recebia um legítimo embate de futebol de várzea.

Para minha sorte, o jogo era um clássico que faz ferver a atmosfera do lugar: o Athletico Krukutu, equipe local, recebia o time da Tekoa Tenondé Porã, a Aldeia da Barragem (que leva o mesmo nome da Terra Indígena). Mesmo sem conhecer o time da casa é possível identificar a camisa deles: trata-se de um uniforme inspirado no do Clube Athletico Paranaense.

Tupã, o craque da equipe, não parece, no entanto, ligar muito para essa possível influência.

"Não sei [se foi inspirada no Athletico-PR]. Os caras fizeram a camisa e entregaram” - ouvi dele.

Kruku

Na torcida tinha mais mulher do que homem, mas se engana quem pensa que elas estavam ali só pra torcer: as kunhãs gritavam ao mesmo tempo que esperavam a partida terminar, pois também jogariam.

“Aqui ninguém guarda posição”, dizia Olívio Jekupé, meu guia na aldeia, em tom de comentarista. Jekupé é um dos maiores nomes da literatura nativa do país e tem 22 livros publicados. Foi ele, inclusive, que me contou com detalhes o acontecimento da abertura da Copa.

“A FIFA esteve aqui na aldeia e, na época, convidou jovens para fazerem parte da abertura. Eu indiquei o Werá, porque ele tinha 13 anos e já entendia o português. Daí, as lideranças fizeram umas reuniões e planejaram elaborar a faixa. O Werá entrou depois da Seleção e dos juízes e foi até o meio-campo. Ele estava com a faixa escondida na bermuda e, logo em seguida, tirou ela e começou a andar no campo com a mensagem ‘DEMARCAÇÃO JÁ’.”

Olívio, que acredita na versão de que o povo Guarani já conhecia a bola antes da invasão dos europeus, é pai do garoto que enganou a FIFA em 2014.

Alguns anos se foram e o pequeno guerreiro se tornou um dos maiores rappers indígenas do Brasil: Werá Jeguaka Mirim passou a adotar o nome artístico de Kunumi MC. E não esqueceu aquele papo de Demarcação. Utilizando seu som como ferramenta de luta, ele tem inúmeros sucessos como “Demarcação Já - Terra, Ar, Mar”, música em parceria com Criolo que inicia com um tradicional canto guarani:

“Pemeen jevy pemeen jevy Orevy peraa va'ekue roiko'i, peraa va'ekue roiko'i”

“Nos devolvam a terra que vocês nos tiraram para que a gente possa viver”

Embedded content: https://youtu.be/fNSMq9TORw4

Imerso nessas relações entre indígenas, futebol e rap nativo, encontrei na Zona Oeste de São Paulo outra aldeia que vive tudo isso. Na Tekoa Itakupe, Terra Indígena do Jaraguá, quem falou comigo também foi um rapper de destaque. Assim como Kunumi MC, Mirindju - o Mano Glowers - também gosta de futebol e usa sua arte pra lutar pelos direitos dos indígenas.

Parceiros no RAP, Kunumi e Mano Glowers viram rivais quando a bola rola: o primeiro é corintiano, enquanto o segundo é santista - mas não por influência de seu ídolo na música, Mano Brown. Por outro lado, inspirado no líder dos Racionais MC’s, Glowers desenvolveu a paixão pelo gênero musical. O RAP, que denuncia a realidade dura das quebradas e as injustiças vivenciadas pela comunidade, é presente na vida de muitos indígenas do Jaraguá. Isso porque as aldeias dessa região estão bem perto de algumas periferias, o que aproxima os nativos de muitos elementos da cidade, como o Hip-Hop. Foi desse contato que nasceu o grupo OZ Guarani, do qual Mano Glowers faz parte. Um verso de Mirindju mostra a influência dos Racionais na sua trajetória:

Prazer, sou Mano Glowers, sobre sobreviver no inferno

Esse trecho faz alusão ao histórico álbum Sobrevivendo no Inferno, de 1997, que é tido por muitos como o mais importante do RAP nacional. Nessa pegada de rimar em português e guarani como forma de transitar pelo mundo sem deixar de valorizar e preservar sua cultura, eles lançaram sons como Contra a Pec 215 e Conflitos do Passado. O futebol, a outra paixão da aldeia, também aparece nos versos. Se liga nesse trecho de “O Índio é forte”:

"Um dia de sol, na zona oeste, Jaraguá, Tekoa, os mano e as mina no campo jogando bola, a criançada brincando, com o sorriso no rosto, sendo feliz, assim que é, no meu olhar, xerexa´py aexá [no meu olhar eu vejo]”.

Oz Guarani
Grupo Oz Guarani durante apresentação.

Para além do Hip-Hop, de forma semelhante à que acontece na Krukutu, o futebol se materializa na Tekoa Itakupe através dos dois campos, ambos idealizados por lideranças femininas. O futebol para eles é fundamental porque lá o esporte proporciona mais do que um espaço de diversão: é, sobretudo, a salvação dos jovens M’bya, subgrupo da etnia Guarani. Sobre isso, Kandara Yamani, que também vive na aldeia e está na linha de frente da luta pelos direitos dos Guarani, toca em uma ferida da comunidade:

“O tabaco e a folha da coca são sagrados, mas quando se tornam uma matéria do capital, tudo se distorce. Retira-se o caráter ritualístico do consumo. Os jovens, ainda que aldeados, têm contato com essas e outras drogas como maconha e crack. Há uma vergonha por ter deixado isso chegar à comunidade. O futebol, então, tem papel fundamental na integração e no divertimento das crianças, além de afastá-las do que não é bom”

Depois de um assunto delicado, o próprio Mirindju, para quebrar o clima tenso, me conta que tem uma galera muito boa com a bola no pé; os que se destacam são chamados para uma espécie de Seleção do Jaraguá: os melhores das Tekoa Itakupe, Pyau e Ytu vão representar a Terra Indígena nas quebradas próximas.

Após conversar com importantes representantes indígenas, percebi que o ato de Kunumi MC em 2014 tem significações muito mais profundas do que se imagina. Erguer a faixa ‘DEMARCAÇÃO JÁ’ é produto de uma luta de séculos que se desdobra também no futebol e no RAP. O esporte e a música são dois dos muitos espaços que os Guarani M’bya estão existindo, resistindo e se reinventando. Aliás, a incorporação de elementos não-indígenas à sua cultura não tira deles sua condição de nativos - eles seguem cultivando seu nhandereko: suas tradições, seu modo de viver, pensar e agir.

“E pra você sou eu que estou errado por usar internet e não andar pelado, isolado... pensamento colonial, retrógrado e limitado pois pra mim ser indígena é me sentir e ser livre”

-Trecho traduzido de “Xondaro Ka’aguy Reguá” (Guerreiro da floresta) - Kunumi MC