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O futebol tá acabando com a saúde mental de quem o ama

O esporte mais popular do mundo tem se transformado em um campo minado para a saúde mental de quem torce e, principalmente, de quem se envolve profissionalmente. Chegou a hora de tocar na ferida e desarmar as bombas.

por Fernanda Lima | 20 de August
O futebol tá acabando com a saúde mental de quem o ama
Ilustração: Duds Saldanha / PELEJA

A evolução do futebol ao longo das últimas décadas é clara quando se trata de questões técnicas, táticas, organizacionais e comerciais. Tudo isso, de uma forma ou de outra, tem um profundo custo de manutenção: saúde mental.

Você já deve ter lido ou ouvido casos de jogadores profissionais que tiveram algum problema de ordem psicológica durante a carreira ou tempos após pendurarem a chuteira: Adriano, Cicinho, André Gomes, Mertesacker... todos eles fizeram ou ainda fazem parte da engrenagem que é capaz de triturar a saúde mental de quem vive o futebol.

Saúde mental, saúde mental, saúde mental. Ok, é um termo muito falado hoje em dia, mas, na real, o que significa isso?

A saúde mental pode ser entendida como um estado onde se consegue lidar com as adversidades da vida cotidiana, realizar atividades de acordo às suas capacidades e habilidades, conseguir se relacionar de forma positiva com outras pessoas e, de alguma forma, ser produtiva (o). Esse bem-estar pode ser afetado por questões econômicas, de moradia, alimentação, relações interpessoais, condições de trabalho, saúde física, entre outras. Beleza, mas voltando ao esporte.

No futebol brasileiro o tema é tratado de forma mais aberta quando um atleta ou jornalista famosos se manifestam sobre problemas psicológicos durante a carreira, mas não se vê nas instituições, sejam clubes ou grupos de mídia, um projeto estruturado para integrar a Psicologia, especialidade que tem como objeto de estudo justamente o psiquismo humano.

O PELEJA conversou com Alline Calandrini, ex-jogadora do Santos, do Corinthians e também da Seleção Brasileira. Ela hoje é jornalista e contou detalhes da preparação das atletas para as competições. A revelação não choca: embora os clubes contassem com profissionais de Psicologia em seus quadros de funcionários, o contato com as atletas raramente acontecia.

Alline Calandrini
Alline Calandrini durante treino no Santos. Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

A Lei Pelé (9.615/98) instituiu a obrigatoriedade de contratação de psicólogas/os pelos clubes que possuírem categorias de base. A exigência, no entanto, não vale para o futebol profissional - pelo menos por enquanto, visto que há um Projeto de Lei do Senado (13/2012) em fase final de tramitação, de autoria do ex-senador e atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, visando alterar a Lei Pelé para incluir assistência psicológica a atletas profissionais.

Alline ainda contou que o trabalho de preparação mental era feito sozinha ou com a ajuda de coaches, que ficavam responsáveis por motivar a equipe. Você deve se perguntar: tá, mas não é disso que os atletas realmente precisam?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as condições de trabalho são uma das maiores fontes de adoecimento mental no mundo. Baixa remuneração, pressão, estrutura, relações interpessoais e planejamento de futuro são alguns fatores que interferem diretamente na saúde psíquica. Agora imagine como tudo isso ferve no ambiente esportivo de alto rendimento!

Para a ex-jogadora, “50% do desempenho é psicológico”. E não são raras as entrevistas de treinadores, jogadores e outros personagens no meio do futebol que citam a parte psicológica para explicar o que aconteceu no jogo. A percepção da importância desse aspecto também não é recente.

Nelson Rodrigues, na crônica publicada no jornal Manchete Esportiva, em 1956, disse para se referir a parte emocional dos atletas brasileiros na final da Copa de 1950: “[...] no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud* seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco.”

*Freud foi o criador da Psicanálise, uma das principais teorias de conhecimento sobre a mente humana.

Embora pareça unânime o entendimento de que ter saúde mental é fundamental no meio esportivo, a ideia de realizar um trabalho mais profundo nesse sentido é alvo de comentários que mostram um completo desconhecimento de como a Psicologia pode ser fundamental.

Os últimos três técnicos da Seleção Brasileira já deram declarações, de certa forma, ignorantes sobre o tema.

Técnicos
Dunga: Agência Photocamera Felipão: Rafael Ribeiro/CBF Tite: Lucas Figueiredo/CBF

Dunga, em evento na CBF no ano de 2016, falou que o jogador não abriria o coração para quem não conhece e que o atleta não saberia se o psicólogo manteria sigilo ou levaria o que foi dito para os dirigentes.

Felipão, em 2014, afirmou “eu sou o psicólogo da Seleção”.

Já Tite, no início de 2020, respondendo sobre Philippe Coutinho, disse que o jogador precisava “de carinho, de conversa e ser mimado, pois tinha uma personalidade frágil”.

Todas as falas demonstram desconfiança, desconhecimento, centralização de funções na figura do treinador e, por que não, certo preconceito. Vale um destaque para as questões de confidencialidade e desconhecimento, pois esses quesitos parecem ser grandes pedras no caminho na abertura dos atletas para o cuidado com a saúde mental.

Alline Calandrini comentou sobre isso durante a entrevista. Segundo sua percepção, o sentimento de incerteza sobre o sigilo do conteúdo tratado com a psicóloga afastava as jogadoras do acompanhamento psicológico. Além disso, afirma que, no tempo em que jogava (até 2018), a falta de conhecimento era enorme sobre a importância de cuidar da mente para além das questões motivacionais e de concentração.

A Psicologia, na sociedade em geral, padece com estereótipos e preconceitos. “Isso é coisa pra doido”, “não sou louco”, “pensarão que eu tô maluco se souberem que tô fazendo terapia”, “será que o psicólogo não vai contar o que eu falei?” – essas frases são ditas com mais frequência do que se imagina. Associações da Psicologia com loucura, fraqueza e/ou com a fofoca impedem muita gente de ter contato com a profissão. Que fique claro: a Psicologia é uma ciência com vastos estudos, métodos de pesquisa estruturados e, principalmente, um código de ética claro e rígido. Dentre todas as normas de conduta profissional, o sigilo é um dos pilares estruturantes da atuação profissional.

Mesmo assim, ainda é vista com maus olhos por muitos que trabalham dentro dos clubes, sejam dirigentes, técnicos ou atletas. A situação, no entanto e apesar de lentamente, parece estar mudando. Durante a pandemia de COVID-19, atendimentos psicológicos começaram a ser prestados para jogadores profissionais através de projetos desenvolvidos por empresas particulares, psicólogos dos próprios clubes ou de federações estaduais.

Talvez para que um dos maiores tabus do futebol seja definitivamente superado, a própria Psicologia precise vestir a camisa 10 e se apresentar ainda mais para o jogo.

Tá na hora de abrir o olho pra o que tá acontecendo nas redes. E abrir a cabeça.

A engrenagem maluca do futebol não compreende apenas quem trabalha nos clubes, mas também aqueles que ganham a vida fazendo análises e comentários que elogiam ou criticam os clubes de milhões de pessoas apaixonadas.

Elton Serra, jornalista baiano e usuário ativo do Twitter, onde posta vídeos e textos das suas análises sobre jogos da dupla Bahia e Vitória, conhece bem esse lado perigoso das redes sociais.

Elton Serra
Elton Serra durante participação em programa na ESPN

Em conversa com o PELEJA, confirmou o que já tinha anunciado: pretende mudar de área no jornalismo. A constante exposição à intolerância ao contraditório e frustração por parte dos torcedores é um dos principais motivos para a decisão. Por mais que faça terapia e seja adepto da meditação, Elton define a situação como “um furo na parede”:

“Você acaba não ligando, mas quando vem o tempo ruim, começam a vir os vazamentos. É aquela coisa de ir minando.”

Ser atacado constantemente nas redes sociais por tempo prolongado pode produzir efeitos danosos à saúde mental, a exemplo do Transtorno de Ansiedade.

A naturalização da profissão de comentarista esportivo como alvo da fúria de torcedores e a ideia de que esses profissionais precisam ser resilientes parecem estar cristalizadas no meio futebolístico. Ao se assumir essas premissas, cria-se um campo minado: a cada post, inúmeras agressões explodem e afetam a saúde mental de quem ousa opinar sobre times, jogos, atletas e bastidores.

Hoje eu gosto muito menos do jornalismo esportivo do que eu gostava há 15 anos quando eu comecei

Cada vez mais perde-se o desejo, o diálogo e a alegria do futebol. Futebol masculino, é preciso ser dito. O movimento que acontece na modalidade jogada por mulheres é bem diferente em alguns sentidos.

Não é comum que o público que acompanha o futebol feminino demonstre tanta agressividade na internet. O senso de união para o desenvolvimento da modalidade é maior, criando uma rede de pessoas que se apoiam de forma positiva. Alline Calandrini foi quem deu o alerta para isso, principalmente por ter vivido esse cenário nos tempos de jogadora e agora, no lugar de jornalista, perceber que a forma com que os públicos tratam as duas modalidades é distinta, embora o esporte seja o mesmo e a paixão, claro, esteja envolvida.

Elogios

A grande diferença está, muito provavelmente, no status que cada modalidade alcançou. O futebol feminino ainda busca, em um processo coletivo, se estabelecer no cenário, enquanto o masculino, dono do pedaço, tem objetivos completamente individuais.

Na era pós-moderna onde o conhecimento é disseminado em uma velocidade absurda, muitos se apropriam de assuntos variados e adotam verdades absolutas. O resultado disso são os “especialistas de qualquer coisa”. Os debates, tão importantes para construção de novas ideias, ficaram esvaziados, porque a tentativa de conversa é rondada por uma aura de certeza de que o conhecimento do outro é menor ou vale menos.

Alline, Elton e a maioria dos jornalistas esportivos do país compartilham algo para além da profissão e área de atuação: todos têm alvos nas costas e convivem com a rotina de menosprezo e xingamentos.

Xingamentos

Quem se preocupa com esses profissionais?

O futebol está se tornando cada vez mais um lugar adoecedor e um campo fértil de elementos com força de destruição da saúde mental. A relação do torcedor com o esporte está contaminada e isso tem muito a ver com algo mais amplo e profundo.

A relação já conturbada com o ganhar x perder, potencializada pelas angustias de viver em um contexto polarizado e sem perspectivas, provoca reações que se expandem com maior intensidade até o futebol, via por onde muitos sentimentos são canalizados. O esporte acaba sendo plano de fundo de frustrações, raiva, medos e tristezas que não terminam nos 90 minutos, continuam nas redes sociais dos atletas, técnicos e jornalistas, aqueles que, teoricamente, possuem culpa ou apontam o que não é suportado: o fracasso. O que era diversão deixou de ser há muito tempo.

Na pesquisa divulgada pelo site da BBC em 2018, esse fato se evidencia: os torcedores ficam mais tristes com as derrotas dos seus clubes do que felizes com as vitórias.

O tempo vai passando e a relação está ficando ainda mais explosiva. Resta saber quem realmente se preocupa com esse tic-tac, tic-tac, tic-tac.