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As torcidas querem comprar os clubes na Inglaterra. E até você pode contribuir.

Uma onda de protestos de torcedores contra donos de clubes tomou as ruas e as arquibancadas inglesas nos últimos dias. Muitos acreditam que a solução seja comprar parte dos clubes, mas será que isso é mesmo possível?

por Fernanda Lima | 4 de May
As torcidas querem comprar os clubes na Inglaterra. E até você pode contribuir.

Anotícia de que 12 clubes grandes da Europa, visando o aumento das receitas, juntaram-se para criar uma Superliga escancarou uma treta que está se tornando cada vez maior: torcedores x cartolas. Em uma queda de braço que já dura algum tempo, de um lado estão os apaixonados e apaixonadas por seus clubes e pelo futebol no geral; do outro, os caras que decidem na canetada os rumos do esporte mais popular do planeta.

Entendendo que a bola não rola mais sem grana por trás, os torcedores, carregando memórias de tempos em que amar e torcer pareciam mais fáceis, lutam incansavelmente contra a transformação do futebol em soccer. Tentam, pelo menos. Isso porque o soccer, como chamam o esporte nos Estados Unidos, é quase um sinônimo de dinheiro, negócio. Como fazer, então, para equilibrar a balança entre o desejo de ser campeão dos principais campeonatos e o ódio por isso estar condicionado à quantidade de dinheiro que seu clube tem?

As torcidas inglesas talvez vivam isso como ninguém.

Inseridos em um sistema onde é permitido que os clubes sejam vendidos e comprados por bilionários de qualquer parte do mundo, os torcedores, de uma forma meio perversa, entram na equação na hora do negócio: quanto mais torcida, maior o preço do clube.

"Quando Mike Ashley vende o Newcastle United, a única coisa que vale a pena vender é sua base de fãs. Sem eles, o clube não vale."

Alex Hurst, torcedor do Newcastle

Depois, ficam todos à mercê da boa vontade dos proprietários para investimentos em grandes jogadores, estruturas, diminuição do preço dos ingressos...

O Bury, situado ao norte da Grande Manchester, foi uma das vítimas recentes desse mundo sinistro em que o futebol está metido. Comprado em 2018 e com dois títulos da tradicional Copa da Inglaterra na sala de troféus, o pequeno clube, por causa de dívidas estratosféricas acumuladas durante anos, deixou de existir. Em uma situação cruel, os torcedores, justamente aqueles que criticam o sistema, foram obrigados a torcer até o último minuto para que alguém comprasse o clube e o resgatasse do abismo em que estava. A compra não rolou.

Bury
Reprodução: Mirror

Entre os considerados grandes, não é difícil ver protestos de torcidas nas arquibancadas e nas redondezas dos estádios contra os donos dos clubes. No Old Trafford, os fanáticos torcedores do Manchester United constantemente levam faixas e cantam contra os irmãos Glazer, empresários norte-americanos que se tornaram proprietários do clube há pouco mais de 15 anos. Segundo a torcida, os donos só se importam com o lucro e não com o sucesso esportivo dos Red Devils.

"Quinze anos de propriedade sem paixão, perspectiva e apoio financeiro quando necessário. Quinze anos enriquecendo a família Glazer, sem se importar o suficiente para investir no futuro do nosso clube. O United para mim e para muitos outros é um estilo de vida, uma religião [...] tire os Glazers de Manchester!"

Trecho de uma carta do grupo American Red Devils destinada à diretoria do clube.

Depois da entrada do United na Superliga, a paciência da torcida com os proprietários e o atual presidente parece ter acabado. Dezenas de torcedores invadiram o campo de Old Trafford com sinalizadores, cartazes e faixas antes do clássico contra o Liverpool, que rolaria pela rodada 34 da liga nacional.

United
Foto: Phil Noble/Reuters. Reprodução: Agência Brasil

Uma torcida que vive situação parecida é a do Arsenal. Há muito tempo sem protagonismo na Premier League e sem nunca ter conseguido um título nos torneios europeus nos 10 anos em que Stanley Kroenke, outro norte-americano bilionário, está à frente do clube, o empresário é alvo do ódio dos torcedores, que cobram a preservação da tradição dos Gunners além de títulos.

Se a briga para que os donos abram mão dos clubes ainda não deu resultado, a luta pela história das instituições surtiu efeito na saída de vários deles da Superliga. Para defender um esporte mais democrático e impedir que os clubes tornem banais as tão especiais noites europeias de futebol, as torcidas do Arsenal, Chelsea, Tottenham, Manchester City, Manchester United e Liverpool protestaram contra a entrada dos clubes na competição. Entendendo que a nova liga ignorava as origens pobres dos clubes por mais dinheiro, muitos aproveitaram para, novamente, pedir a saída dos proprietários.

Para se livrar de quem acreditam prejudicar a instituição, no entanto, as manifestações da torcida não parecem ser suficientes para os donos decidirem se desfazer do clube e negociá-lo com outro multimilionário. Ao mesmo tempo em que são a alma e parte mais importante do clube, os torcedores também são reféns. Mas não se rendem.

A torcida do tradicional Newcastle, por exemplo, achou uma forma prática de tentar, finalmente, ter voz nas decisões e mudar o rumo do clube do coração, que está sendo sucateado pelo dono Mike Ashley. O Newcastle United Supporters Trust (NUST), grupo organizado de torcedores, lançou a The 1892 Pledge, uma campanha para arrecadar dinheiro e comprar pelo menos 1% do clube quando o atual proprietário decidir vendê-lo.

"Achamos que os fãs de futebol - e os do Newcastle - não percebem quanto poder e quanta influência têm.”

O PELEJA trocou uma ideia com Alex Hurst, idealizador do projeto e certamente um torcedor cansado de ver o clube que ama sendo gerido por um cara que só quer saber das cifras. Ele explicou sobre o grupo:

“NUST é uma organização democrática e transparente. Se obtivermos êxito em nosso objetivo, que é comprar parte do clube, os representantes serão diretamente indicados pelos membros do Trust, escolhidos em eleições anuais.”

A campanha não tem prazo final e vai durar o quanto for necessário. Além disso, a proposta é de que pessoas do NUST trabalhem na diretoria ou em outros cargos importantes no Newcastle, garantindo que a torcida esteja representada nas decisões. E se você, torcedor dos Magpies, sonhou em algum momento fazer parte do clube, saiba que essa chance é real. E, segundo Alex, a presença de torcedores brasileiros no grupo é muito bem vista.

“Torcedores brasileiros do Newcastle podem participar se tornando membro do Trust. E apoiadores de todo o mundo são bem-vindos. Adoraríamos ver mais membros brasileiros. Somos 15 mil, o maior conjunto de apoiadores da PL e da Inglaterra.”

Caso você seja torcedor e queira participar, é só acessar o site da campanha.

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Lr Michael Mannion, Alex Hurst e Charlotte Robson, os idealizadores do NUST. Reprodução: Chronicle Live

E as alternativas dos apaixonados para salvar seus clubes de uma das garras mais devastadoras do famigerado futebol moderno, o monopólio de bilionários, continuam sendo discutidas. No Manchester United, os torcedores que defendem um clube mais democrático inspiram-se em um esquema comum na Alemanha, país onde a torcida tem maioria (51%) dos votos nas decisões do clube.

Já um grupo de torcedores do modesto Bröndby, desesperados com a ameaça de o clube dinamarques ser comprado pela Red Bull, achou uma solução inusitada: compraram centenas de bilhetes de loteria para tentar ganhar o prêmio e comprar o clube eles mesmos. O Bröndby é conhecido como “Os garotos dos subúrbios do oeste” e a torcida acredita que uma possível venda para a Red Bull feriria os princípios do clube. Se liga em um trecho do comunicado divulgado pelo conjunto de torcedores responsáveis pela ação.

“Se a Red Bull se envolver com o Bröndby, não poderemos mais nos identificar como torcedores ativos do clube. Em Salzburg e Leipzig, podemos ver como o dinheiro dos austríacos transformou o futebol real em negócio puro. Eles mudaram os escudos, as cores, o nome dos estádios… Tudo! Nós nunca deixaremos que isso aconteça com nosso clube.”

Brondby
Torcida do Bröndby durante um jogo do clube fora de casa. Foto: Bo Amstrup. Reprodução: BT

Os torcedores do mundo todo parecem estar entendendo cada dia mais que precisarão lutar para não deixar que as tradições e memórias dos seus clubes se percam no redemoinho de dinheiro, investimentos e ações, algo que não fazia parte do futebol que aprenderam a gostar.